quinta-feira, 29 de novembro de 2012

A Igreja de Cristo - texto para reflexão - José Wilson Schlickmann



O canto e a música nas Celebrações da nossa Igreja

I.   A Igreja de Jesus Cristo, segundo a Lumen Gentium

01. Introdução. A nossa Igreja, no Vaticano II, através do documento conciliar ‘Lumen Gentium’, diz e acredita que Cristo é a luz dos povos e Ela (igreja), ao anunciar o Evangelho a toda criatura, deseja iluminar todas as pessoas com a claridade de Cristo, cujo rosto precisa resplandecer na face dessa mesma Igreja que anuncia, isto é, o rosto de Jesus precisa ser o rosto dessa nossa Igreja. E n’Ela, sempre que celebrada a memória da ceia de Jesus com seus discípulos, celebra-se o sacramento do Pão Eucarístico para a unidade dos fiéis, vindo a constituir um só corpo em Cristo. Assim como no corpo humano muitos são os membros, com suas respectivas e importantes e indispensáveis funções, também na Igreja de Jesus, muitos são os dons, as funções, as necessidades e as responsabilidades mútuas entre os que a integram.

02. Vocação da Igreja/Discípulos. Dessa realidade decorre a compreensão sobre a grande vocação de todo o povo cristão que é a de viver unidade com Cristo e em Cristo, presente na Igreja, encorajados e animados pelo Espírito Santo. Essa necessidade de fazer-se corpo, de ser grupo, de as pessoas serem vocacionadas para viver unidade/comunhão com Cristo e com os irmãos é facilitada pela presença do Espírito Santo, iluminando a todos na busca do melhor jeito de viver, no aqui e agora de todos os dias e lugares, a proposta do Reinado de Deus, anunciado e testemunhado por Jesus. Colocar-se a serviço da implementação do Reinado de Deus é a grande vocação comum a todos, tanto da hierarquia, quanto dos demais membros dessa nossa Igreja. Portanto, o parâmetro, o critério ou o referencial para as eleições, escolhas e decisões de todos os membros da Igreja são sempre os valores propostos por Jesus.

03. A Igreja no coração do mundo. O lugar próprio para viver a experiência de Igreja fiel à proposta de vida anunciada e testemunhada por Jesus é o mundo no qual cada um está inserido; esse é o lugar próprio, é o único que se tem. Isto porque sempre se vive num ‘aqui e agora’ concretos. É nesse mundo, nesse lugar e tempo específicos e respectivas circunstâncias, que homens e mulheres têm para viver, trabalhar, orar, festejar. É dentro ou de dentro, com essa e/ou a partir dessa realidade, com toda a intensidade de vida nela existencializada, que as pessoas vão construindo seus sentimentos, suas compreensões, seus quefazeres, suas conversões e é nela e com ela que também irão fazer suas orações, suas celebrações, suas festas.

04. as Celebrações e os respectivos Ritos. Numa festinha ou celebração de aniversário sempre se tem um aniversariante, sujeito centro da celebração/comemoração. E essa celebração de aniversário tem o seu ritual próprio, sob pena de não ser celebrado o ‘aniversário’ que se deseja celebrar. A celebração de um aniversário sem o momento do canto ‘Parabéns a você’ parece não ser um aniversário. Aquelas partes que são indispensáveis para que o fato seja ele mesmo são as chamadas partes intrínsecas ao evento e essas partes constituem o chamado RITO de uma celebração. Uma festa de comunidade obedece a mesma lógica; tem o padroeiro que precisa ser mencionado e/o lembrado e o rito próprio, que pode ser mais ou menos solene, com mais ou menos pessoas, com muitas ou poucas atividades, mas sempre tem um ‘esquema’, um jeito próprio. Da mesma forma, ainda, uma data de emancipação municipal ou de criação de um país. Essas datas têm sempre um sujeito e tem um ‘esquema’, um cerimonial/ritual que é observado, cumprido, próprio para essas celebrações/festejos.

No espírito e propósitos desse nosso Encontro sobre o Canto Litúrgico, a grande pergunta que permeia toda essa nossa atividade é ‘como nós cristãos católicos celebramos a vida, a morte, a ressurreição e a mensagem de Jesus Cristo que continua vivo e presente no Pão da Eucaristia e na memória dos que Nele crêem’?
           Cfr. Doc. Conciliar ‘Lumen Gentium” sobre a Igreja – Edições Paulinas – S. Paulo - 1965


II.   O Canto na Liturgia de acordo com a Sacrosanctum Concilium

01. Introdução. A tradição musical da Igreja católica constitui um tesouro de inestimável valor. Ocupa um lugar proeminente, principalmente porque o Canto Sacro, baseado em palavras, é parte integrante da Liturgia solene. A música sacra tem uma função ministerial importante no culto dominical. E a música sacra será tanto mais santa quanto mais intimamente estiver ligada à ação litúrgica, quer exprimindo mais suavemente a oração, quer favorecendo a unidade, quer dando maior solenidade aos ritos sagrados da Missa. A música sacra tem duas grandes finalidades que são a glória de Deus e a santificação dos fiéis (cfr 112 SC).

02. O lugar do canto e da música na liturgia. A ação litúrgica recebe uma forma mais elevada quando os ofícios divinos são celebrados com canto e neles intervêm os ministros do canto sacro e quando o povo participa ativamente. A SC recomenda que o tesouro da música sacra seja conservado e favorecido com suma diligência e que sejam assiduamente incentivadas as ‘Scholae cantorum’. Que os Bispos e pastores cuidem com diligência que toda a comunidade possa participar conveniente e ativamente das funções sacras realizadas com canto (cfr 113 SC). E que para promover a participação, trate-se de incentivar as aclamações do povo, as respostas, as salmodias, as antífonas e os cânticos, bem como as ações e gestos e, a seu tempo, seja também guardado silêncio (cfr 30 SC).

03. Formação Musical. A SC recomenda que se tenha grande preocupação com a formação e a prática musical nas escolas católicas e institutos de formação e aos compositores e cantores seja dada uma genuína formação litúrgica (cfr 115 SC).

04. Gêneros Musicais. O Canto gregoriano é marca tradicional da liturgia romana. Outros gêneros de música sacra não são excluídos, contanto que se harmonizem com o espírito da ação litúrgica (cfr 116 SC). É conveniente que se prepare a edição de músicas mais simples para favorecer a participação do povo (cfr 117 SC). O canto popular religioso seja inteligentemente incentivado, de modo que os fiéis possam cantar nos pios e sagrados exercícios e nas próprias ações litúrgicas, de acordo com as normas e orientações (cfr 118 SC).

05. Os instrumentos musicais. Tenha-se na Igreja Latina em grande consideração o órgão de tubos, como instrumento tradicional de música, cujo som pode acrescentar às cerimônias admirável esplendor e elevar com veemência as mentes a Deus e às coisas divinas. Outros instrumentos musicais podem ser admitidos ao culto divino, contanto que sejam adequados ao uso sacro, ou possam a ele se adaptar, condigam com a dignidade do templo e favoreçam realmente a edificação dos fiéis (cfr 120 SC). Importante é observar que as eventuais mudanças não podem comprometer a unidade substancial do rito romano e que estejam de acordo com o verdadeiro e autêntico espírito litúrgico desejado (cfr 37 e 38 SC). Se há a necessidade de mudanças, que as mesmas sejam feitas com muita prudência e que as mesmas ajudem na edificação dos fiéis (cfr 40 SC).

06. Dos compositores e suas produções. Imbuídos do espírito cristão, compenetrem-se os compositores que foram chamados a cultivar a música sacra e para aumentar-lhe o tesouro. Componham, porém, melodias que apresentem as características da verdadeira música sacra, e que possam ser cantadas não só pelos grandes coros, mas que também estejam ao alcance dos modestos e favoreçam a participação ativa de toda a comunidade dos fiéis. Os textos destinados aos cantos sacros sejam conformes à doutrina católica, e sejam inspirados e tirados principalmente da Sagrada Escritura e das fontes litúrgicas (cfr 121 SC). 
      
                Cfr. Doc. Conciliar ‘Constituição sobre a Sagrada Liturgia’ - Vozes 2ª edição – 1966


III.   Identidade dos Cantos Religiosos: Litúrgicos e Pastorais

Obs.: Segundo Frei Turra, ‘a música é serva da Palavra’; entretanto, ouso acrescentar: tudo o que for feito ou pensado para uma Celebração Eucarística deve fazer com que as pessoas a compreendam, vivam, curtam e interiorizem o Mistério da Encarnação de Cristo que acontece no gesto da consagração do Pão e do Vinho. A consagração faz o Cristo presente e vivo na comunidade que celebra. O ritmo, o volume, o tom dos cantos, das falas, das orações, dos gestos, a ornamentação, tudo deve favorecer à criação de serenidade, interiorização, devoção, intimidade com o Mistério celebrado. A ninguém que venha a presidir qualquer um dos momentos da Celebração Eucarística é dado o direito de se preocupar apenas em fazer com que os outros rezem e tenham sua intimidade com Cristo; ele mesmo que preside deve ser o primeiro a criar em si o espírito de oração, de devoção, de intimidade com o Mistério Celebrado.

1.      Tendo como pressuposto as compreensões acima apontadas, a Igreja, integrada por todas as suas comunidades, celebra sua vida, sua história, suas conquistas, sua caminhada, enfim, faz as suas celebrações na perspectiva de criarem sempre mais comunhão, tanto entre os membros que integram uma comunidade cristã específica, quanto comunhão com as demais comunidades cristãs católicas presentes mundo inteiro.

Celebração é festa e, a princípio, não há festa sem música, sem cantos. O canto e/ou a música não são enfeites, mas fazem parte constitutiva da celebração da festa eucarística. A presença da música e/ou do canto é intrínseca ao ato de festejar e de celebrar a eucaristia. Assim como os países têm o seu hino ou hinos, os estados têm o seu, um município o tem, as dioceses o têm e as comunidades, com seus padroeiros, também têm o seu hino. Em qualquer uma dessas festas a presença do hino é uma realidade necessária.

2.      As nossas canções têm origem nos seis primeiros séculos da Igreja, constituídos a partir de duas grandes vertentes: a salmodia e o hino. A Salmodia: dirigida e coletiva (contínua ou alternada); as intercaladas ou responsoriais e as formas variadas de antífonas que favorecem a escuta e a intercessão. Os hinos, nascidos no Oriente, propagam-se pela Europa, atingindo seu pleno amadurecimento com Santo Ambrósio no ano de 397 d.C. Por séculos esses cantos permaneceram com as mesmas características.

Com o Concílio Vaticano II aconteceu um sopro renovador nas nossas celebrações, na forma de conduzi-las e no jeito de o povo participar. O povo foi convidado para uma participação mais ativa e envolvente e, ao mesmo tempo, renovadora no jeito de celebrar. Com isso a realidade do povo passou a ser mais cantada, principalmente com a presença da Teologia da Libertação, provocando outras vertentes de cantos.

‘Entretanto, o tempo que vivemos hoje é um tempo muito delicado, pois se observa uma tentativa de retrocesso, quase que uma volta ao praticado antes do Vaticano II. A moda ‘retrô’ parece estar marcando grande influência também no comportamento de parte da nossa Igreja. Se, de um lado, é importante guardar os tesouros da tradição, de outro lado, entretanto, não se pode eliminar os avanços e as coisas novas que vão sendo criadas. Afinal de contas, o Espírito Santo continua soprando novidades aos que se dispõem a ouvi-lo’ (observação do autor desse texto).

3.      Hoje são reconhecidas duas modalidades de cantos religiosos: o canto litúrgico e o canto pastoral. O canto litúrgico é criado para um momento específico da celebração Eucarística ou da celebração da Palavra. Esses cantos, de preferência, têm inspiração direta em textos bíblicos. Os cantos Pastorais, por sua vez, são todos aqueles cantos de mensagem positiva, religiosa ou não, que possam ser utilizados em encontros e catequese, e em outras atividades e/ou encontros similares. Em algumas situações especiais, os cantos Pastorais também podem ser utilizados na celebração Eucarística. Significa, pois, compreender que todo canto Litúrgico é pastoral, mas nem todo canto Pastoral é litúrgico.

4.      A seguir, são apresentadas algumas orientações com a intenção de auxiliar a quem tem a função de escolher os cantos para as celebrações. Essas orientações fundamentam-se em documentos da CNBB e em diretrizes específicas sobre a presença do canto na Liturgia. Entretanto, não significa dizer que, em determinada celebração, não se possa fazer algo que não se encaixe exatamente com o que é recomendado abaixo. Essas normas querem apenas ajudar o povo a rezar e rezar bem através do canto, sugerindo o instrumento e o ritmo mais corretos no momento certo. Não se quer dizer que ‘tem que ser assim’.

Para isso é bom lembrar que o presidente da celebração e aqueles que a preparam devem discernir o que fica bem fazer ou não fazer em cada ocasião e/ou momento da celebração. O critério a ser levado em conta, pelos que preparam uma celebração, sempre deve ter origem numa resposta sincera, à seguinte questão: Desta forma que estamos pensando fazer vai estimular o povo a participar, vai ajudar o povo a rezar melhor, com mais devoção, vai provocar mais intimidade com Cristo?


IV.    Critérios para a escolha dos Cantos e respectivas Celebrações.

Essas orientações desejam ajudar no processo de fundamentação das escolhas dos cantos, bem como construir mais unidade em nossa caminhada de Igreja através das nossas celebrações. São fornecidas algumas ‘dicas’ que querem ajudar.

Procedimentos recomendados: 
* Escolher cantos, cujas letras estejam em harmonia com o texto/mensagem do Evangelho e/ou de uma ou outra das leituras propostas para o dia; 
* Dar preferência para os cantos cujas letras sejam inspiradas em textos bíblicos... ‘Cantai ao Senhor, bendizei seu amor’... ‘O Senhor é o meu bom pastor’..

Existem três tipos de letras:
A) Em primeiro lugar, dar preferência aos textos cujas letras são em si mesmas uma oração (letras orantes)... ‘Sabes, Senhor, o que temos é tão pouco pra dar’... Senhor, abra-nos os olhos e veremos a salvação’... ‘Senhor, meu Deus, quando eu maravilhado’... 

B) Em segundo lugar, os textos, cujas letras descrevem e/ou narram uma situação (letras descritivas)... ‘Tu vieste à margem do lago, não buscaste’... ‘Quem vê o sol nessa manhã, quem vê uma pouco mais de paz’... ‘Na comunhão recebemos do Pai’... ‘Irmão, é bom se encontrar’... 

C) Em terceiro lugar, os textos que buscam transmitir uma ideologia, uma maneira de pensar de um grupo (letras psicologizantes)... cantos identificados com um movimento ou uma pastoral específica... Não são recomendados para uma celebração Eucarística... São a última opção. 

-Preferir letras escritas no plural... pois se quer celebrar comunitariamente... ‘Nós cantamos com alegria’... ‘Ofertamos, Senhor, pão e vinho’... ‘Cantai (vós) ao Senhor’... 

·Observar silêncio durante a Consagração e após a Comunhão; É importante oferecer esses momentos de silêncio ao povo que ora, reza, interioriza... Nas Missas com transmissão via Rádio ou TV... não se pode fazer momentos muito grandes de silêncio... nesses casos, cada caso é um caso... recomenda-se bom senso.

-Utilizar, de preferência, quando se canta andando, em procissões e/ou momentos similares, o ritmo balada, toada, marcha... isto é, cantos que ajudem a dar ritmo calmo e orante durante a caminhada...

Atenção: Quando a missa é para toda a comunidade, não existe a ‘missa do movimento X ou do setor pastoral Y ou Z’ que está coordenando ou ‘puxando’ os cantos... o que existe é a ‘missa com o movimento X ou com o setor Y ou Z’. Mesmo que um setor e/ou um movimento tenha preparado a celebração... é necessário fazer sempre em comunhão com toda a comunidade, para que essa possa junto cantar... os cantos devem ser de conhecimento de toda a comunidade e essa mesma comunidade toda deve poder participar. Entretanto, se houver uma Missa específica para um movimento e/ou um setor de pastoral, de conhecimento da comunidade, nestes casos podem ser cantadas algumas canções mais identificadas com o setor e/ou com o movimento que celebra, mas sempre em caráter de exceção.

Há dois grupos de cantos litúrgicos: os que são o rito e os que acompanham o rito. 
*Os que são o Rito: Esses cantos são os mais importantes; é quando o rito é cantado; nestes casos sempre se canta o canto até o fim e o texto precisa ser o mais fiel possível com o texto que é rezado. Integram o rito de uma Missa: Ato penitencial, Glória, Salmo responsorial, Creio, Santos, Pai-Nosso, Canto de louvor.
 *Os que acompanham o Rito: Esses cantos duram enquanto durar o rito ao qual eles servem. São eles: entrada, entrada da bíblia, aclamação, procissão das ofertas, comunhão e de envio e ainda outros durante bênçãos, aspersões... 

* Algumas observações pertinentes:
- É importante, em respeito aos compositores, quando forem elaboradas fichas de cantos, indicar o nome dos autores.

- Os cantores, os ‘ensaiadores’, os ‘puxadores’ de canto, compositores e instrumentistas são Ministros do Canto. Portanto: tenha-se uma postura adequada; não chamem a atenção pela extravagância dos gestos, do falatório, das roupas, enfim, do comportamento enquanto a comunidade reza. Os animadores do canto também precisam rezar, não podem ser apenas ‘profissionais’ que vão lá só para ‘fazer um show’, ‘fazer um som manero’, enquanto os demais rezam.

-Lembrar sempre que o mais importante é o ambiente ‘orante’ que se quer e precisa ser criado em cada celebração. Portanto, tudo o que contribuir para que isso aconteça, seja bem-vindo, o que atrapalhar que seja evitado.

 *Ah!, E aquele canto para Nossa Senhora ou para o Padroeiro que ‘precisa’ ser cantado sempre no final da missa... Esses cantos serão cantados nas ocasiões próprias, isto é, nas datas daquele padroeiro; para Nossa Senhora existem várias festividades; nestas datas, tudo bem que se cante... mas, nas demais ocasiões, que a comunidade se reacostume a cantar a liturgia própria do dia.

* ”Antes da missa pode haver música instrumental ou cantada, ao vivo ou gravada, para criar clima de oração e de recolhimento e formar uma atmosfera de acordo com o espírito da celebração que vai se iniciar. É também muito útil tocar uma gravação, ou mesmo nos instrumentos, a melodia dos cantos a serem ensaiados e cantados na missa; esse recurso facilita o ensaio e a aprendizagem” (Doc. CNBB nº 12, p.7).

*Música ambiente: quando as Igrejas permanecem abertas, além do horário das suas Celebrações, para o público poder rezar e/ou para visitação de turistas, essa atitude ‘pega muito bem’. A experiência tem demonstrado que a presença da música sacra no ambiente faz bem a quem visita uma Igreja, mesmo que turista. A música ambiente pode inspirar, sugerir e/ou levar as pessoas a momentos bonitos de oração, de interiorização, de contemplação.


V.     Momentos da Celebração e a Identidade desses Cantos 

São apresentadas algumas considerações e/ou sugestões sobre a identidade dos cantos para cada um dos momentos que integram uma Celebração Eucarística: 

·Canto de entrada: Ser alegre, vibrante, que fale em acolhida. Não dura muito mais que do que a Procissão de Entrada. De preferência, todos cantam.

·Ato Penitencial: Texto integral, ou, no mínimo, deve conter os dizeres ‘Senhor tende piedade de nós, Cristo, tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós’. Para pedir perdão, é conveniente adotar uma atitude de serenidade e de arrependimento; o ritmo da música deve ser calmo, solene, lento, de preferência música em tons menores. Pode ser executado por solista(s) com intercalações pelo povo.

-Glória: Trata-se de um dos mais alegres cantos da Celebração. Seja o texto o mais integral possível. Todos os instrumentos são bem-vindos. Pode ser cantado por todos, ou alternado: coro-assembléia, ou, em ocasiões especiais, cantado por coral.

·Entrada da Bíblia: Participação livre: solo, coral, povo, dança...

·Salmo responsorial: É resposta do povo à leitura bíblica recém ouvida. Deve ser, necessariamente, salmo. Não é qualquer canto de meditação. É salmo porque esse momento faz parte da liturgia da palavra, assim como as leituras. De preferência solista(s) canta(m), intercalando com o povo ou coral.

-Procissão das ofertas: O ritual das oferendas perdeu a sua rigidez, tornando-se um dos momentos mais livres da celebração. De acordo com cada ocasião, pode-se escolher o canto que mais vai se adequar. Pode falar no pão e no vinho; pode falar das ofertas naquele momento trazidas. Pode ser acompanhado por uma dança ou coreografia...

·Sobre os gestos: Sempre que houver a sugestão de gestos específicos em momentos de uma Celebração, o povo deve estar livre para fazê-los, se quiser. Não fica bem forçar: ’todos com os braços assim’. Deve ser respeitada a índole de cada um, para que todos se sintam bem à vontade.

·Santo: O mais vibrante canto da Celebração. A letra deve ser integral e/ou o mais próximo possível do texto do rito. Sua execução pode ser acompanhada com todos os instrumentos possíveis. De preferência que todo o povo cante.

·Pai nosso: Para valer pela oração, a letra deve ser igual ao texto original. Quando cantado, é sempre cantado por todos. Sugere-se rezar (ou cantar) também o seu final ‘pois vosso é o reino, o poder e a glória, para sempre’.

·Abraço da paz: Cuidar para não mandar o povo fazer duas coisas ao mesmo tempo: saudar os irmãos de Celebração e cantar. Ou se fala, ou se canta. Se for cantar, fazer o anúncio do canto quando o povo está terminando de se cumprimentar.

·Cordeiro de Deus: Cantar uma melodia não muito rápida, com a letra integral ou uma letra o mais próxima possível do texto integral.

·Comunhão: Letras em sintonia com o Evangelho e/ou que falem do Corpo e Sangue de Cristo, no seu sacrifício pela salvação do povo. De preferência, utilizar canção orante. Enquanto o povo se movimenta para e/ou na ‘fila’ da Comunhão, pode-se utilizar de um solo instrumental, ou um grupo canta e em seguida entoar canções que o povo possa cantar, toda e/ou em parte/refrão, sem a necessidade de portarem um livro ou folheto em suas mãos. No momento do pós-comunhão, respeitar algum momento de silêncio... pode-se cantar ainda outras canções. Sempre respeitando ‘o espírito’ que pensado provocar em cada Celebração. Pode-se intercalar o canto com prelúdio (solo instrumental no início), interlúdio (solo instrumental no meio da canção) e pós-lúdio (solo instrumental no fim).

·Compromisso final e Envio: A canção final deve ter e/ou criar um clima positivo, animado, e a letra deve motivar a comunidade para os desafios da semana. Pode, portanto, constituir-se num incentivo que encoraje as pessoas em sua caminhada, que ligue o evangelho à vida. Que seja cantado sempre antes do ‘Ide em paz’, porque após perde o sentido, uma vez que a assembléia já foi dispensada. Entretanto, logo após o ‘Ide em paz’, os animadores do canto podem ainda cantar algum canto, mas sem convidar a assembléia para isso. Uma música instrumental também pega bem neste momento.


Aprender a respeitar o caráter diferenciado de cada uma das celebrações e aprender a respeitar para quem ela é preparada é uma grande sabedoria.

       Texto construído a partir da Lumen Gentium, da Sacrosantum Concilium, de  
        Documentos da CNBB e de subsídio elaborado por Joel Franz.


Campo Bom, 27 de novembro de 2012.
                                                                                 José Wilson Schlickmann
                                                                                Coord. CODIMUSA NH


Tópicos para reflexão no Encontro de Esteio Novo em 01-12-2012

Roteiro das considerações:

01.  Auto-apresentação e motivação para ali estar

02.  Por que aqui estamos? Quem somos? Nós irmãos e o povo ... quem é o ser humano ...

03. Dimensões constitutivas do ser humano: húmus manas... somos resultado da terra e à terra voltaremos  ... um prato de comida ...
            03.01 – dimensão corpo                   exercícios físicos
            03.02 – dimensão psique                       exercícios mentais
            03.03 – dimensão espiritual                     exercícios espirituais ...
            Dimensões relacionais:             ... como cuidar, cultivar ... como exercitar-se
            03.01 – relação com as coisas  ... relações com as coisas ... de utilidade
            03.02 – relação com os outros  ...      “         com o outro de intersubjetividade
            03.03 – relação com o transcendente ... relações de transcendência

04. Dimensão espiritual – é a dimensão do sentido da vida, das relações ... o que anima as pessoas a agirem de um ou outro jeito? É a qualidade do seu espírito... se de vingança, se de perdão, se de compreensão, se de solidariedade...

05. Valores – são valores para quem os valora ... o que é sagrado ... o almoço da família uma vez por mês ... pode ser algo sagrado ...

06. Qual é o sagrado que une os cristãos? ... Cristo, sua vida, mensagem, testemunho, sua memória, a Eucaristia ...

07. Ser cristão é qualificar o seu espírito pelo espírito de Jesus... isto é, o mesmo espírito que animava Jesus a ser do jeito que era é o espírito necessário para ser um discípulo seu ...

08. Religião é uma forma de relação, de diálogo com o transcendente absoluto, ... um é o grande espírito que une o grupo ... os cristãos ...

09. Para um grupo se reunir, viver o mesmo espírito, dedicar-se à mesma causa são necessárias normas, combinações, coisas em comum ...  um grupo de esportes, de dança, de teatro, de canto, de oração

10. As celebrações dos grupos obedecem a um rito ... um aniversário de criança, de jovem, de adulto ... o festa pelo título de uma torcida, a festa em homenagem à padroeira de uma comunidade... a reunião de um clube de cultura obedece a um ritual,  a festa de aniversário obedece a um ritual... a reunião dos cristãos em torno do Mestre Jesus também obedece a um ritual ... e esse ritual é próprio e específico só desse rito... isto é, possui um conjunto de características que as pessoas identificam como sendo isso ou aquilo... de longe se percebe se as pessoas estão fazendo um festa de aniversário ou não ... pelo canto do parabéns a você ..., pelos ‘comes e bebes’, etc... ?como percebem que as pessoas estão Celebrando a Eucaristia ??? ...

11. O que é liturgia ... o que é um rito, um ritual ... após o dilúvio foi oferecido um sacrifício, quando descobriram o Brasil celebraram uma Missa, quando inauguramos um novo lugar para a comunidade rezar rezamos uma Missa ... Missa festiva da padroeira Aparecida tem um ritual diferente das Missas do dia a dia de uma comunidade...

12. A primeira Missa ... a Santa Ceia de Jesus com seus discípulos ... tinha todo esse ritual que hoje utilizamos e que às vezes até chegamos a condenar nossos irmãos???  Será que Jesus estava preocupado em cantar esse ou aquele canto, em rezar desse ou daquele jeito? ... entretanto para construir unidade se pensou em algumas coisas que seriam importantes que se observasse ... mas foram criados por nós humanos, não exigências de Jesus ... o que quero dizer com isso é que é importante que se tenham normas, rituais, orações comuns a todos, mas elas não podem ser maiores que a mensagem de Jesus, que o espírito necessário para se encontrar com Jesus na Eucaristia,  ... o conjunto da celebração deve fazer bem ao coração, à alma, ao espírito das pessoas que juntas celebram ...

13.  Ir para anotações do texto ‘O canto e a música nas Celebrações’

14. Ir para os textos de e-mail ... o que dizem sobre o Advento ... e o que se quer celebrar ... esses textos falam por nós ... concordamos com eles??? ...  

                                                          Autor: José Wilson Schlickmann

sábado, 17 de novembro de 2012

Irmãos Schlickmann no Santuário Pe Reus e Notícia

Novamente participamos de Celebrações no Santuário Pe Reus
                       Domingo de 04 de novembro de 2012
 

É sempre muito bom participar das Celebrações neste Santuário.

As pessoas se sentem bem rezando e cantando aqui,
além de poderem 'curtir' o entorno do Santuário.


A notícia muito boa é que estamos finalizando nosso 3º CD ...


 

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Irmãos no Festival de Coros da Tramontina

O 'Caminho do Trem Restaurante', em Farroupilha, é um lugar muito bom como restaurante e, ao mesmo tempo, possui um espaço excelente para apresentações artístico-culturais.
Na noite de 22 de setembro aconteceu um Festival de Coros promovido pela Empresa Tramontina.


Nós, Irmãos Schlickmann,  fomos agraciados com o convite para participar dessa noite de muitos cantos, muita alegria e confraternização ...


Após as apresentações houve espaço para cantar e confraternizar da forma mais descontraída possível ...Apresentamos, informalmente, algumas canções do nosso 3º CD que está sendo produzido ...






Agradecemos pelo carinho e pela acolhida que tivemos na Serra Gaucha ...


Somos gratos aos amigos da Tramontina, principalmente ao Sr Lourival, à Deonice e à Andréia ... e muitas flores da cor do vinho para todos ... abraços ... Wilson

sábado, 22 de setembro de 2012

Paróquia Santa Teresinha em festa da Padroeira


A Paróquia Santa Teresinha
de Campo Bom
 celebra a sua Padroeira durante toda esta semana
e culmina
com a grande festa
no próximo domingo,
dia 30 de setembro ...
                                                       Nós Irmãos Schlickmann, estivemos ontem à noite
cantando na celebração de abertura destes festejos em homenagem à Padroeira.
Tivemos a oportunidade de apresentar três das novas canções que integram nosso próximo
 CD que deverá estar pronto
 até dezembro deste ano.

Hoje à noite estaremos
particiando de um
Festival de Canto
promovido pela empresa
Tramontina de Farroupílha ...


Para você um grande abraço, um bom domingo e muitas flores 

                                               

sábado, 15 de setembro de 2012

3º CD em produção



Estamos muito felizes com o 3º CD que está sendo produzido.
Esse nosso novo CD contém 14 canções inéditas ... deverá chegar ao mercado em novembro deste ano.

Para conhecer todo nosso trabalho acesse as postagens anteriores.

Na gravação desse CD contamos com a participação do nosso irmão Guido, que é professor na Foz do Iguaçú ... foi muito bom poder contar com ele. 


Deus é muito pródigo e rico 
em suas manifestações ... 

Quantas vezes passamos ao lado de tantas belezas da criação e não nos damos conta, não vemos ... 


Quantas pessoas lindas, queridas, maravilhosas em suas experiências de vida ... e a gente não as vê ... elas estão ao nosso lado, passam por nós e não as vemos ...

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Vocação, Missão e Identidade Laical




Queridas alunas e alunos, a messe é grande! É no 'coração do mundo' que os leigos precisam testemunhar sua adesão à proposta de Jesus...

(É uma plantação do cereal 'canola' situada entre Carazinho e Palmeira das Missões RS)

Prof. José Wilson Schlickmann, Mestre em Educação, professor com passagem pelo Colégio Anchieta, Col. Dom Diogo de Sousa, Escola Santa Teresinha, 31 de Janeiro,  Unisinos e Feevale, ex-presidente do CNLB da Diocese de Novo Hamburgo e do CNLB Regional Sul III, delegado do CNLB Nacional na Assembléia de Constituição do CONIC, atual professor da Faccat, Coordenador de Cursos de Extensão em Ciências Religiosas e Semanas Teológicas promovidas pela Faccat, Coordenador da Comissão do Canto Litúrgico Pastoral da Diocese de Novo Hamburgo, membro da Equipe de Canto Litúrgico Pastoral da CNBB Sul 3 e integrante da Equipe de Liturgia na Paróquia Santa Teresinha de Campo Bom RS.
                                           
Vocação, Missão e Identidade Laical
                                          
Este trabalho tem a intenção de fomentar, estimular e provocar um processo de estudo, reflexão e análise com vistas a uma melhor e mais clara compreensão da vocação, da identidade e da missão do cristão leigos e leigas na Igreja Povo de Deus. Este texto deseja ajudar na caminhada de construção da identidade laica de homens e mulheres comprometidos com as causas do Reino de Deus, anunciado, vivido e testemunhado por Jesus de Nazaré. Quer falar dos ensinamentos e saberes hoje corporificados na história e vida da Igreja Povo de Deus que se manifesta, está presente e age em cada um dos discípulos missionários e em cada uma das comunidades discípulas missionárias que se reúnem fundamentadas e motivadas pela fé no Deus revelado em Jesus Cristo.

São apresentados pontos de orientação para o estudo, a reflexão e a busca de mais saberes e compreensões a respeito da vocação, da missão e da identidade laical e da forma de crer e de viver a serem concretizadas. Isso para que, como cristãos leigos e leigas singulares, como movimentos e/ou organizações de leigos e leigas, melhor possam contribuir com a implementação e a inculturação dos valores do Reino de Deus no coração dos diferentes mundos específicos nos quais vivem e convivem os leigos e leigas. Fala-se da vocação, da missão e da identidade específicas de leigos e leigas e dos seus múltiplos organismos e movimentos nos quais se encontram inseridos e com os quais se sentem comprometidos na construção da Igreja Povo de Deus.

Para acontecer efetivamente esse processo de estudos e de busca da identidade laical considera-se necessário ter consciência de que é importante alargar o horizonte compreensivo a respeito da vocação, da missão e da identidade específica dos cristãos leigos e leigas. Isso porque, para ser e/ou vir a ser o leigo e a leiga que a Igreja de Jesus precisa, sente-se a necessidade de muita oração, formação, capacitação, clareza e unidade de propósitos, fraternidade na caminhada, apoio mútuo, troca de experiências, muita determinação, organização, articulação e, sobretudo, considera-se importante entender a necessidade de juntos aprenderem a crer como Jesus acreditou nas causas do Reino do Deus cristão.

Este subsídio quer, pois, se constituir num instrumento provocador de estudos, debates e de construção de novas compreensões sobre a Igreja de Jesus, sobre o específico dos cristãos leigos e leigas e sobre a necessidade de organização, de articulação e de representatividade laical junto à hierarquia dessa mesma Igreja. Justifica-se essa determinação, tendo em vista construir melhores condições para que, como cristãos leigos e leigas, todos possam cumprir, com mais alegria, fundamentos, consciência e consistência, a sua vocação e missão específicas na construção do Reinado de Deus nesse mundo concreto, do aqui e do agora, das realidades nas quais cada cristão leigo e cada cristã leiga vive, convive, ora e trabalha.

São apresentados estudos, compreensões e saberes que ilustram a condição de cristãos leigos e leigas, a vocação e a missão específicas, as necessidades de organização, de articulação e de representatividade e a necessária unidade, relação e comunhão com os demais organismos da Igreja Povo de Deus, com o objetivo de que cada um possa melhor entender quem é e qual o lugar que ocupa e/ou que precisa ocupar.

Este roteiro de estudos é resultado de um conjunto de subsídios produzidos pelo CNLB em sua caminhada de articulação e de organização do laicato no Brasil, construído durante os muitos anos da sua caminhada de articulação. Constitui-se de saberes, reflexões e compreensões fundadas em documentos do Concílio Vaticano II e/ou nele originados e inspirados. Com essa finalidade descrita, o texto a seguir está dividido em tópicos com o objetivo didático de melhor apresentar este trabalho e, ao mesmo tempo, de ajudar a melhorar o entendimento dos que o lerem e o estudarem.

1.  Ser Igreja a partir da realidade.

Esse primeiro tópico, Ser Igreja a partir da realidade, fala da caminhada da Igreja a partir do Vaticano II e chama a atenção para a necessidade de que cristãos leigos e leigas sejam a Igreja Povo de Deus dentro da sua realidade concreta e específica, ou seja, no Coração do Mundo.

Diz a Lumen Gentium que “aos leigos compete, por vocação própria, buscar o Reino de Deus, ocupando-se das coisas temporais e ordenado-as segundo Deus. Vivem no mundo, no meio de todas e de cada uma das atividades e profissões, nas circunstâncias ordinárias da vida familiar e social. Aí os chama Deus a contribuírem, do interior à maneira de fermento, para a santificação do mundo e a manifestarem Cristo aos outros através do testemunho de vida e do fulgor de sua fé, esperança e caridade” (LG 31).

Segundo essa compreensão, é no mundo das atividades profissionais, no lar, nos ambientes de convivência, no lazer, nas esferas da economia, da política, da política partidária, dos meios de comunicação, das instituições educacionais, da saúde, da moradia, da justiça, da terra, e ainda, segundo essa mesma compreensão, é nas mais variadas e diferentes estruturas organizativas da sociedade que os cristãos leigos e leigas, com o seu testemunho e presença transformadora, são insubstituíveis como cristãos e cristãs da Igreja Povo de Deus.

Em outras palavras, o lugar próprio, específico, privilegiado e prioritário para o testemunho cristão dos leigos e leigas é o vasto, complexo e dinâmico mundo da política, do social, do econômico, da cultura, das ciências, das artes, da técnica, da comunicação; é também o complexo mundo das organizações e articulações nacionais e internacionais, bem como ainda, constitui-se lugar próprio, da ação evangelizadora do laicato, o vasto e complexo campo das questões relacionadas com a família, com os jovens, os idosos, a mulher e as minorias, o campo das diversas formas e estilos de trabalho, os sofrimentos e as exclusões de grupos significativos da população, submetidos a condições indignas de existência e de vida, segundo os critérios do Reino de Deus.

Também, de acordo com a Lumen Gentium, ”os leigos são chamados de modo especial a tornar presente e operante a Igreja naqueles lugares e circunstâncias onde Ela só por meio deles pode vir a ser sal e fermento. Assim o leigo é, ao mesmo tempo, testemunha e instrumento vivo da própria missão da Igreja nos seus lugares específicos” (LG 31).


2.  Princípios de ação necessários
De acordo com as aprendizagens construídas na caminhada de vida, de fé e de estudos do laicato no Brasil, são necessários alguns princípios norteadores para fundamentar e alicerçar essa responsabilidade dos leigos em seu desafio missionário frente às causas do Reino de Deus. Entre outros, é preciso:

Adotar, como princípio de vida e das suas ações, atitudes e comportamentos de persuasão e jamais de imposição. É necessário convencer os outros e os espaços de convivência que cada um ocupa na sociedade, pelo exemplo, pela coerência entre o discurso cristão e a prática cristã, convencer pela constância e persistência na vida cristã e pela alegria em viver a proposta na qual se confessa acreditar.

Entender a Igreja e a proposta de Jesus, como um parâmetro de avaliação entre o jeito de Jesus ser protagonista do Reino e o jeito de cada cristão leigo e leiga ser protagonista desse mesmo Reino, buscando continuamente uma melhor adequação do seu estilo de vida ao estilo de vida de Jesus.

Entender que o mais importante não é crer em Jesus, e sim, crer como Jesus acreditou e esteve comprometido com a proposta do Reino, amar como Jesus amou, até a morte. Esse pressuposto compreensivo dá conta de que não é suficiente acreditar em Jesus e isso porque os diabos presentes na sociedade de hoje também acreditam em Jesus.

Buscar compreensão e entendimento de que a identidade do cristão leigo e leiga é também marcada, como a dos demais cristãos, pelo batismo na Igreja de Jesus Cristo, pela tradição apostólica e pelo comprometimento com as mesmas causas pelas quais Jesus deu a sua própria vida.

Estar convencido de que a identificação com a Igreja de Jesus transparece na prática, naquilo que o cristão leigo e leiga é no seu dia-a-dia, enquanto seguidor e imitador de Jesus e na qualidade cristã da sua relação com o vasto mundo das instituições e organizações da sociedade e com os demais fiéis dessa mesma Igreja de Jesus. É nessas relações que se manifesta ou não a verdadeira identidade cristã dos seguidores de Jesus.

Aprender a reconhecer, a acolher, a valorizar e a promover os diferentes dons, as diferentes formas e riquezas de ser Igreja, colocando-se junto com os demais cristãos na construção do Reinado de Deus. Ter consciência de que esse Reino é bem maior que a pequenês, a mesquinhês e a miserabilidade de espírito de muitos e muitas que se dizem pertencer a essa Igreja, sejam eles leigos e leigas ou não.

Articular-se e organizar-se com as demais expressões e manifestações da Igreja de Jesus, o Cristo, para que, com mais força e com mais condições e pertinência, ser instrumentos mais eficazes a serviço da construção do Reinado de Deus com o qual Jesus estava vital e radicalmente comprometido.

Ter consciência de que a organização e a articulação dos cristãos leigos e leigas não é um movimento a mais que vem para substituir os carismas dos demais, para impor uma nova espiritualidade ou um novo valor inspirador e motivador para a vida cristã desta ou daquela pastoral ou movimento, desta ou daquela instituição ou entidade.

Assumir a compreensão de que, tanto os Núcleos Paroquiais do Laicato, como o Conselho Diocesano do Laicato, o Conselho Regional do Laicato ou o Conselho Nacional do Laicato, são organismos de articulação, mobilização, motivação, animação, apoio e representação dos cristãos leigos e leigas. Isso para que o laicato, em seu todo, seja mais forte e mais capaz de se fazer ouvir nas diversas instâncias representativas do poder público constituído e também fazer-se forte e ouvido frente às diversas e diferentes instâncias e organismos da hierarquia eclesiástica. Isso para que juntos sejam mais fortes e convincentes em suas posições diante dos vários e intermináveis desafios que a sociedade, marcada pelos valores do neoliberalismo capitalista lhes impõe, causando transtornos aos desejos e propósitos da implementação do Reinado de Deus.

Por fim, compreender e assumir, radicalmente, como pressuposto, que todo batizado, leigo e leiga, não exerce um papel supletivo ou uma função secundária no campo da missão e da evangelização, mas que possui um papel e lugar próprio, específico, intransferível, só dele, e, portanto, de sua única, exclusiva, inalienável e indeclinável responsabilidade. Significa compreender e assumir o fato de que nenhum cristão leigo e leiga exerce uma suplência; significa dizer, de forma mais radical, que não pode existir ninguém, fora das quatro linhas do campo da missão e da evangelização, esperando por uma eventual substituição para entrar no jogo; não podem existir suplentes, pois na Igreja de Jesus ninguém é suplente de ninguém. Todos os cristãos leigos e leigas são titulares e precisam, necessariamente, assumir essa sua condição de titularidade na construção do Reinado do Deus de Jesus, o Cristo.


3.  Necessária consciência eclesial.
Convém, entretanto, nessa sua condição de titularidade, também ter a consciência de que, apesar dessa insistência na insubstituibilidade do leigo e da leiga nos diferentes campos específicos da sua missão evangelizadora, ele e ela não estão sós ou solitários nessa Igreja. A compreensão e/ou a imagem de Igreja, desenvolvida no Vaticano II, apresenta como necessidade resgatar, fazer crescer, amadurecer e valorizar a condição da dignidade do cristão leigo e leiga e a sua respectiva corresponsabilidade eclesial.

Decorrente dessa mesma imagem de Igreja, a partir das compreensões construídas no Vaticano II, o cristão leigo e leiga tem como Vocação e Missão participar ativamente de toda a vida da Igreja; impregnar o mundo da proposta e do espírito cristãos; santificar e ordenar tudo segundo o plano e a vontade de Deus; tornar-se sal e fermento cristão onde vive, se diverte, ora e trabalha; ser testemunha cristã no meio da comunidade humana (cf. LG 33 e GS 42).

Ainda, decorrente dessa mesma imagem de Igreja construída e encontrada no Concílio Vaticano II, precisam, os leigos e leigas, ter consciência, compreender e assumir que:

Os cristãos leigos e leigas não exercem um ministério supletivo, pois não são cristãos de segunda categoria e por isso não podem mais agir como Igreja só quando convocados pelo clero e bispos e/ou suas respectivas organizações; que o mandato eclesial torna-se dispensável para que o leigo e a leiga trabalhe na edificação do Reinado de Deus, do qual toda a Igreja é apenas um instrumento, compreendendo a Igreja não como um fim em si mesma, mas apenas meio de salvação;

Podem e devem colaborar com os sacerdotes, bispos, diáconos e com suas respectivas organizações, mas não podem substituir padres, bispos e diáconos ou suas organizações em suas respectivas especificidades de missão e de responsabilidade;

Devem, leigos e leigas, viver sua vocação e missão no coração do mundo, assumindo esse mesmo mundo como o seu lugar próprio e específico de missão e de evangelização, isto é, são chamados a se colocarem a serviço das causas do Reino de Deus e a inculturar, no aqui e agora do mundo no qual vivem, trabalham, convivem e oram, a mensagem e a prática de Jesus de Nazaré, o Cristo, razão da sua fé;

O protagonismo dos leigos e leigas se dá numa Igreja Povo de Deus e numa condição de relações entre iguais em responsabilidade com os demais integrantes dessa Igreja de Jesus, o Cristo;

A religião não é mais a do Rei, não é mais a da família, a da tradição, porque agora a religião é a da opção, da adesão individual de pertença a esta ou àquela comunidade de fé religiosa;

O Vaticano II libertou o Espírito Santo e os cristãos e cristãs precisam libertá-lo ainda mais, pois não há mais o proprietário do sagrado, o proprietário de todas as verdades, de todo o poder, isso porque a Igreja, em seu todo e totalidade é depositária do Espírito Santo, que agora sopra onde quer, em quem quer e quando quer e é importante reconhecer e dar-se conta que o Espírito Santo sopra também sobre e nos cristãos leigos e leigas;

Precisa organizar-se, tanto quanto necessário, para ser mais e melhor uma Igreja Povo de Deus a caminho do Reino, onde quer que esteja, viva, ore e trabalhe;

Um ministério e/ou um serviço eclesial somente tem razão de existência quando o mesmo estiver a serviço de uma comunidade específica de fé.


4.  O necessário dever dos bispos, clero e respectivas organizações.
Da mesma forma que os cristãos leigos e leigas têm uma missão própria e insubstituível no contexto da Igreja de Jesus, também os bispos, clero e suas respectivas organizações têm um dever próprio e específico. É pensamento do Concílio Vaticano II que todos os da hierarquia eclesial precisam:

Ter consciência de que a razão de existência de bispos, padres e suas diferentes estruturas organizativas e cargos eclesiásticos, só têm motivo e razão de existência porque existem fiéis leigos e leigas, comunidades cristãs e pessoas por serem evangelizadas, isto é, reconhecer que alguém só pode exercer o pastoreio quando existirem ovelhas por serem pastoreadas;

Reconhecer, resgatar e acolher a dignidade de todos os seres humanos e estimular, valorizar e promover a responsabilidade dos cristãos leigos e leigas em sua vocação e missão específicas;

Utilizar-se dos saberes e conselhos dos protagonistas do Reino de Deus que vivem, têm experiência de Igreja e são a Igreja no coração do mundo;

Entregar e/ou confiar, aos leigos e leigas, ofícios no serviço da Igreja instituição e também responsabilidades organizativas e administrativas;

Reconhecer, estimular e promover a liberdade e a amplitude da ação pastoral dos leigos e leigas, com ênfase para aquela ação de testemunhas cristãs no coração do mundo;

Encorajar, apoiar e criar condições para o surgimento, o fortalecimento e a continuidade de empreendimentos laicos em outras e novas formas de serviço à causa do Reino e Povo de Deus;

Reconhecer a justa liberdade de trabalho, de articulação e de organização que compete aos cristãos, leigos e leigas, no coração do mundo, para serem mais fortes, capazes, competentes e persistentes em suas ações de missão e de evangelização.


5.  A necessária Autonomia e Comunhão
Esse tópico aponta para o fato de que todos e todas que têm a consciência de pertença a uma comunidade de fé cristã e integram a Igreja de Jesus precisam reconhecer que:

A autonomia não é sinal de individualismo ou de assumir-se superior aos demais e sim sinal de garantia de identidade. Isso porque a comunhão entre dois indivíduos ou mais, entre instituições ou organismos, só é possível quando ambos se constituírem sujeitos autônomos. Somente a autonomia dos sujeitos que interagem na Igreja de Jesus pode garantir as condições para a comunhão, para a liberdade e para a construção da identidade própria de cada um dos sujeitos presentes nessas relações;

O sentido da existência do ser humano, enquanto indivíduo, se situa no seu ser-para-o-outro, no seu ser-com-o-outro; que é somente na condição de autonomia que ele pode decidir ser-com-o-outro, que é somente na condição de autonomia que ele pode buscar e propor comunhão e que é, também, somente a partir da condição de comunhão que são constituídas e construídas as possibilidades de realização do homem e da mulher, dos cristãos e cristãs, seres sócios dos e com os demais membros da comunidade de fé;

O ser cristão de todos os membros da Igreja de Jesus só é constituído e só se constrói na liberdade de adesão a uma comunidade de fé cristã, de adesão à comunhão com os demais integrantes da grande Igreja de Jesus Cristo, sejam os outros leigos ou leigas, diáconos, sacerdotes, bispos ou religiosos;

A Igreja Povo de Deus é essencialmente a comunidade dos fiéis, discípulos e seguidores do Mestre Jesus de Nazaré, e que é intrínseco a essa comunidade, e dos que a compõem, principalmente os leigos e leigas, serem testemunhas, sinais e protagonistas dessa Igreja comunidade no coração dos seus respectivos mundos específicos;

“Os leigos, que devem participar ativamente em toda a vida da Igreja, estão obrigados não somente a impregnar o mundo de espírito cristão, mas também são chamados a serem testemunhas de Cristo em tudo, no meio da comunidade humana” (GS 43).


6. Modelo de comunhão eclesial.
Na vida relacional das pessoas em sociedade comunga-se de ideais, objetivos, metas, deuses, sonhos. São, também, comungadas a paixão de uma torcida por seu time, a paixão ou a admiração comum pela arte, pela música, literatura, tradição. O modelo de comunhão que a Igreja de Jesus propõe e deseja viver é o modelo relacional de comunhão existente na Trindade do Deus que é Pai, que é Filho e que é Espírito Santo. Portanto:

A comunhão existente entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo precisa ser o modelo de comunhão eclesial a ser buscado. Essa comunhão trinitária é modelo para a comunhão desejada para a Igreja porque, para acontecer qualquer comunhão, é necessária a doação total de um ao outro, a exemplo da relação existente entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo que se doam inteiramente um ao outro;

Todos os cristãos e cristãs, a exemplo da comunhão trinitária, precisam e/ou devem doar-se uns aos outros, colocando-se em atitude de quem serve os outros; essa proposta reflete uma expressão utilizada pelos papas quando os mesmos se auto-intitulam de ‘servo dos servos de Deus’ ou ainda, no mesmo contexto, quando a expressão bíblica diz que ‘quem quer ser o maior que se coloque a serviço dos outros”; doar-se ou servir os outros, portanto, não combina com o servir-se dos outros para subir na vida, para galgar posições mais altas, vantajosas e privilegiadas;

Acontece a construção da comunhão, na Igreja Povo de Deus, quando cada cristão e cada cristã trabalhar e colocar-se a serviço da implementação do Reinado de Deus em sua respectiva realidade;

A comunhão se vive, se constitui e se aprofunda também no estímulo, no respeito e no reconhecimento do serviço e trabalho que o outro faz pela construção do Reino de Deus;

A comunhão Trinitária é o modelo de qualquer comunhão eclesial, também a que deve estar presente na Igreja Cristã Católica. Isso porque não acontece Igreja com um indivíduo sozinho. Seria o mesmo que alguém dizer que é possível a existência de um grupo constituído por uma só pessoa. Grupo e Igreja sempre exigem a presença de outros, a presença de mais pessoas. O Deus Trinitário existe em comunidade e a Igreja de Jesus é, necessária e intrinsecamente, uma comunidade constituída pelo grupo dos que crêem, é sempre e necessariamente uma comunidade de pessoas;

A nova sociedade, protagonizada no Reinado de Deus, é modelada e quer ser moldada na comunhão, e uma comunhão que é mais do que democracia, isso porque a comunhão da qual se fala nesse contexto é essencialmente comunhão fraterna;

São características, dessa Igreja comunhão, o acolhimento, o diálogo, a participação, a colaboração, a corresponsabilidade, as causas e interesses comuns, a comunicação, a solidariedade, o perdão, a correção fraterna, a promoção da dignidade do outro, o reconhecimento do valor do outro, o apoio ao crescimento e à realização do outro;

Três são as dimensões dessa comunhão eclesial: a comunhão com Deus, numa relação vertical e filial; a comunhão com os outros, numa relação horizontal e fraterna e a comunhão com o mundo, numa relação de respeito e valorização dos bens naturais e/ou das coisas terrenas em benefício da promoção de todos os homens e mulheres;

Acontece, pois, comunhão quando os cristãos e cristãs comungam, em Jesus, o Cristo, um Deus Trindade, a vida de cada um e de cada uma, quando comungam seus desafios, problemas e vitórias, quando comungam uma Igreja Povo de Deus a cominho do Reinado de Deus, quando comungam uma Igreja comunidade de fiéis e de discípulos de Jesus e, ainda, quando comungam a mesma crença e qualidade de comprometimento com as causas do Reino de Deus como Jesus acreditou e esteve comprometido;

Não é suficiente, pois, acreditar em Jesus, até porque os diabos desse mundo, no qual se vive, também acreditam em Jesus e têm suas crenças comuns; isso significa dizer e reafirmar que é necessário acreditar como Jesus acreditou nas causas do Reino de Deus, por Jesus revelado e anunciado, para acontecer a desejada comunhão eclesial.


7. Necessária relação entre hierarquia e laicato.
Outra temática sobre a qual é necessário falar é a que trata da qualidade das relações entre os leigos e a hierarquia eclesial. Com certeza não se trata de um jogo, a qualquer preço, do poder pelo poder e para ver quem manda e quem não manda, quem é maior, quem é menor, quem vale mais e quem vale menos. A igualdade entre todos os cristãos está fundamentada no fato de que todos são filhos e filhas de Deus, batizados num mesmo batismo, e por isso irmãos e irmãs no irmão maior, Jesus Cristo. Essa compreensão implica em reconhecer que:

Também o papa, os bispos e sacerdotes integram e estão a serviço da comunidade de fiéis e da caminhada de Igreja Povo de Deus, comprometidos com as mesmas causas do Reino, em vista da concretização do Reinado de Deus, comprometimento esse igual ao exigido e esperado dos demais membros dessa Igreja;

A nenhum cristão, seja ele leigo ou membro da hierarquia, cabe o poder pelo poder, o mando pelo mando, o servir-se dos outros, o gozar de privilégios; a todos cabe a atitude de colocarem-se na dinâmica de quem está a serviço, de quem assume a atitude de servo dos servos do Senhor; e isso significa, pois, entender e assumir que cabe a todos serem testemunhas da comunhão a serviço de mais comunhão e que nessa lógica, maior é aquele que mais se coloca a serviço dos outros, ou seja, aquele que quiser ser o maior que seja o primeiro a colocar-se em atitude de quem serve;

Cabe resgatar e promover, nos leigos e leigas, a consciência de pertença à Igreja Povo de Deus, sem a sua necessária clericalização ou intraeclesialização;

Cabe à hierarquia pensar, ser e agir, fundamentada na igualdade intrínseca de todos os cristãos e na sua igualdade de responsabilidades, advindas do mesmo batismo comum a todos, reconhecendo, resgatando, respeitando, acolhendo e promovendo a diversidade de dons, de tarefas, ministérios e serviços para o bem maior da Igreja Povo de Deus;

Cabe, a todos os cristãos, ver, ser e sentir-se Igreja em sua totalidade, pois só assim se saberá valorizar e dar importância a cada parcela desse todo que é a Igreja de Jesus;

Cabe ver, na comunidade de fé cristã, uma Igreja de batizados que, em seu todo, é maior que os elementos que a compõem: bispos, padres, leigos e religiosos;

Cabe ressaltar a importância da unidade, da comunhão, do serviço e da riqueza de expressões da Igreja de Jesus Cristo, uma Igreja toda missionária e evangelizadora a serviço da concretização do Reinado de Deus num mundo no qual todos os cristãos e todas as cristãs vivem, convivem, oram, divertem-se e trabalham;

Cabe compreender que a legítima e necessária distinção entre bispos, padres, religiosos e leigos não significa separação, não significa cisão, ruptura ou serem contrários, e sim, reconhecimento e acolhimento das respectivas identidades singulares, nas suas mais ricas expressões, assumindo, de uma vez por todas, que diferente não é sinônimo de contrário;

Cabe compreender que, como em tudo ou em qualquer grupo, organização e instituição, há a necessidade de uma coordenação e de alguém que, nas devidas instâncias e momentos, seja responsável pela última palavra;

Cabe compreender que a questão não está em ter ou não ter uma última palavra e sim como se chega a essa última palavra, se originada apenas na cabeça de algum membro do grupo ou se originada no consenso, no diálogo, na construção coletiva;

Cabe, finalmente, também compreender que, tanto no sacerdócio ministerial quanto no sacerdócio comum dos demais batizados, um não pode existir sem que o outro exista e que ambos, cada um a seu modo participa do tríplice múnus salvífico de Cristo Rei, Sacerdote e Profeta.


8.  Características da identidade laica.
Perguntas e questões que precisam ser devidamente respondidas são as que tratam de quais são realmente as características específicas dos cristãos leigos e leigas nesse contexto de Igreja Povo de Deus. Sobre essa temática da identidade dos leigos e leigas é pertinente dizer que:

“Os leigos são o conjunto dos fiéis, não ordenados e/ou não consagrados que, pelo batismo, são constituídos em Povo de Deus e que realizam na Igreja e no mundo, na parte que lhes compete, a missão de todo o povo cristão” (LG 31); são homens e mulheres, não ordenados e não consagrados, que vivem e focam a sua atenção e atuação, concentrados no serviço às causas do Reino de Deus, no coração do mundo;

Os cristãos leigos e leigas são aqueles que criam, constituem e moldam sua identidade, configurando suas vidas de acordo com a proposta de Jesus na perspectiva da construção do Reinado de Deus em comunhão com os demais membros da Igreja, mas agindo com o foco de sua ação centrado no coração do mundo; que atuam em seus respectivos mundos, comprometidos com o resgate e a promoção da dignidade humana, sob a ótica da espiritualidade e da ética do Reino, vividas exemplarmente por Jesus;

São homens e mulheres comprometidos, prioritariamente, com as causas dos pobres e dos excluídos, à moda de Jesus, no coração do mundo; seguidores das práticas de Jesus de Nazaré, o Cristo, razão da fé que professam, que são e agem de forma cristã nos diferentes ambientes nos quais vivem, trabalham e se divertem; que se assumem iguais em dignidade e responsabilidade com os demais membros da Igreja, Povo de Deus;

São homens e mulheres, intimamente sintonizados e comprometidos, no coração do mundo, com toda a Igreja Povo de Deus, a caminho da construção do Reinado de Deus, que, no seu jeito de viver e ser, constituem-se protagonistas da ação catequética e evangelizadora em seus respectivos mundos específicos;

São homens e mulheres, enfim, que colaboram, junto com os padres, bispos, diáconos, religiosos e integrantes dos institutos seculares, com a construção do Reinado de Deus, através da Igreja instrumento a serviço do Povo de Deus, cuja união “decorre da união dos espíritos e dos corações, isto é, daquela fé e caridade pelas quais sua unidade foi construída indissoluvelmente no Espírito Santo” (GS 42).


9.  Protagonismo dos cristãos leigos e leigas, uma questão intrínseca.
Algo intrínseco é uma característica sem a qual algo ou alguém não é o que se diz ser ou se anuncia ser. Intrínseco ao cristão, leigo e leiga, é compreender, anunciar e viver no dia-a-dia a sua opção de ser cristão feita no batismo. Assim como é intrínseco à roseira produzir rosas, à laranjeira produzir laranjas, ao pé de abacaxi produzir abacaxis e ao abacateiro produzir abacates, é intrínseco e próprio do cristão produzir frutos cristãos. Da mesma forma que a plena realização da roseira, da laranjeira, do pé de abacaxi e do abacateiro é produzir seus respectivos frutos, a plena realização do ser cristão, leigo e leiga, é produzir seus frutos de protagonismo e de testemunha do Cristo no coração do mundo. Se a roseira, a laranjeira, o pé de abacaxi e o abacateiro pudessem falar é muito provável que se diriam felizes por ser o que são e por produzir o que produzem.

Ser protagonista é ser possuído por essa necessidade de ir à frente, de ir em frente, de colocar-se na ponta, na frente, anunciando a sua alegria de ser o cristão e a cristã que dizem ser. Nessa compreensão, o verdadeiro cristão e a verdadeira cristã são possuídos por essa alegria e a anunciam na alegria de serem o que são, isto é, ele e ela não conseguem não anunciar. Significa, pois, a partir do exposto acima, compreender que: 

O protagonismo do cristão leigo e leiga, no e a partir do coração do mundo, não é uma concessão, um mandato ou delegação recebida, concedida, dada, como se favor fosse, mas que é intrínseco à sua própria condição de batizado e que é do batismo que decorre o direito e o dever intrínsecos de serem homens e mulheres, cristãos comprometidos com a implementação e a inculturação dos valores evangélicos no coração do mundo específico no qual cada um, e cada uma, vive, ora, convive e trabalha;

“O apostolado dos leigos é participação na própria missão salvífica da Igreja; que a esse apostolado são destinados ao receberem o Batismo e a Confirmação” (LG 33). Por isso, o ser leigo cristão implica necessariamente em ser protagonista da mensagem cristã onde se vive, convive, trabalha e ora; significa, ainda, compreender que o leigo cristão só é protagonista do Reino de Deus quando se diz cristão e age de acordo com essa sua profissão de fé. Trata-se da necessária coerência entre o dizer, o fazer e o ser.

10. O específico do cristão leigo e leiga.
O termo específico significa algo próprio, só de alguém, é uma característica só de alguns que os distingue dos demais. Significa compreender que o cristão batizado, leigo e leiga, exerce papel de titularidade no campo da evangelização, ou seja, um papel próprio, específico e só dele e, portanto, de sua única, exclusiva, indispensável, indeclinável e inalienável responsabilidade. Para tanto, ele e ela precisam:

Viver plenamente a sua secularidade, isto é, viver no, com e a partir do mundo que os cerca, isto é, viver sua vocação e missão específicas no coração do mundo no qual encontram-se inseridos;

Fermentar, salgar e ser luz do mundo, a partir de dentro desse seu mundo, santificando-o, ordenando-o e construindo-o na perspectiva do Reinado de Deus, isto é, ajudando a construir um mundo no qual Deus tenha lugar e vez e no qual Deus seja reconhecido, valorizado e amado através da sua presença e por causa da sua presença nesse seu respectivo mundo;

Compreender e assumir, também, que a qualidade cristã das famílias é de especial responsabilidade dos leigos e leigas, porque a “salvação da pessoa e da sociedade humana está estreitamente ligada ao bem estar da comunidade conjugal e familiar” (GS 47); que a sua família é uma escola de enriquecimento humano e que, por isso, todos aqueles que exercem alguma influência nas comunidades e nos grupos sociais trabalhem eficazmente para a promoção do matrimônio e da família cristã” (cfr.GS 52), uma família à moda da família de Nazaré e da comunhão trinitária;

Compreender e assumir, com conhecimento, responsabilidade, dedicação, amor e carinho o cuidado e a promoção da instituição família, querida por Deus, e isso porque se o cristão, leigo e leiga, não o fizer quem o fará, quem cuidará da família.


11. Como viver o específico da identidade do leigo e da leiga.
Outra questão que se impõe é a da vivência do específico da identidade laical. Essa vivência só pode se dar:

Testemunhando, em primeiro lugar, uma autêntica vida cristã em seu ambiente de vida familiar, de trabalho e de lazer, agindo alicerçado nos parâmetros da ética cristã; sendo Profeta, Rei e Sacerdote nas atitudes, comportamentos e ações desencadeadas no coração do mundo onde cada leigo e leiga vive, convive, ora, diverte-se e trabalha;

Fazendo com que as práticas cristãs de leigos e leigas sejam, prioritariamente, concretizadas no mundo e na realidade na qual cada um e cada uma vive, convive, se relaciona, trabalha e faz seu lazer.


12. Onde historiar e colocar em prática o específico do leigo e da leiga.
Cabe destacar, no início desse item, o que escrito na Gaudium et Spes, ao dizer que “o Concílio exorta os cristãos, cidadãos de uma e outra cidade, a procurarem desempenhar fielmente suas tarefas terrestres, guiados pelo espírito do Evangelho” (GS 43). A partir dessa citação e das compreensões que vêm sendo desenvolvidas nesse estudo, é possível deduzir, com facilidade, que o lugar próprio, específico, privilegiado e prioritário onde tornar história esse específico do leigo e da leiga é o vasto, complexo e dinâmico mundo da política, do social, do econômico, da cultura, das ciências, das artes, da técnica, da comunicação, da vida, das organizações e articulações nacionais e internacionais; que também é nas questões relacionadas com a família, com os jovens, com a educação, com o trabalho, com os sofrimentos e as diferentes formas de exclusão.

Para construir a história cristã e viver a vida de cristão, o lugar próprio do leigo e da leiga é, portanto:

O mundo secular, e não dentro ou em torno de um Templo, isso porque o cristão, leigo e leiga, não encontram dentro do templo o seu campo específico de ação, ou seja, o templo é apenas um lugar de celebrar, em comunidade, a vida e a fé cristã professadas;

Estar comprometido com a evangelização, a santificação e o ordenamento do mundo para Deus, no e a partir do mundo, sendo essa a modalidade de vida que caracteriza a distinção ou a diferença entre o cristão, leigo e leiga, e o presbítero, o religioso ou a religiosa;

No e a partir do mundo no qual vive, convive, realiza o seu lazer e, em especial, no lugar onde exerce o seu labor, a sua profissão.


13. Desafios presentes no lugar de exercício da vocação e missão laicas
O Brasil é um país inserido num mundo globalizado com todas as suas conhecidas conseqüências e o leigo e a leiga cristãos vivem e se existencializam, num aqui e agora concretos, marcado pelas características desse mesmo mundo globalizado. Diante dessa realidade, leigos e leigas precisam saber e ter consciência que:

O neoliberalismo capitalista, com o seu espírito alicerçado em seus valores, se opõe aos valores propostos pela prática de Jesus; isso porque, na proposta de Jesus, o ser humano é digno e vale por sua imagem e semelhança com Deus, quando na proposta neoliberal o ser humano merece respeito e vale por aquilo que tem, possui, consome ou produz;

A exclusão e a marginalização são conseqüências de um processo que consagra um projeto global neoliberal capitalista, intrinsecamente excludente; que nele, as vantagens são concebidas para poucos; que o outro não pode participar; que o outro vale pelo quanto produz e consome e que individualismo e egoísmo são a sua marca registrada;

A concentração da riqueza e da renda é um processo já crônico no Brasil, na América Latina e nas demais partes do mundo, constituindo-se numa característica intrínseca ao sistema neoliberal capitalista;

Como conseqüência dessa realidade acima, observa-se a queda da qualidade de vida das maiorias populacionais, através de um salário mínimo insuficiente, da inadequação de investimentos na área social, na educação, saúde, alimentação, mobilidade urbana, habitação;

A presença do crime organizado, da corrupção em quase todas as instâncias e segmentos da sociedade, tanto civil quanto pública, é uma realidade; que a discriminação generalizada por questões de gênero e raça, a exclusão, a repressão e a falta de respeito à dignidade humana é uma marca dessa mesma sociedade neoliberal capitalista;

O pagamento de uma dívida pública, externa e interna, de origens não claras, duvidosas e impossíveis de serem pagas, torna-se um fardo pesado demais para ser carregado pela imensa maioria populacional, nada se fazendo, ou muito pouco, para mudar o status quo organizacional e institucional da sociedade brasileira e mundial;

Essa qualidade social, cultural, econômica e política é naturalizada e passa a fazer parte da paisagem brasileira e, por isso mesmo, aceita, sem causar mais qualquer tipo de indignação ética, entendendo-a como se natural fosse essa realidade.


14. Desafios, para o leigo e leiga, presentes na realidade intra-eclesial.
Algumas práticas tradicionais da Igreja fazem com que sejam encontradas dificuldades e desafios para se viver a vocação e a missão da verdadeira Igreja de Jesus, o Cristo. Essas manifestações tradicionais de ser Igreja provocam dificuldades de superação porque muitos continuam pensando, e outros, voltando a pensar, que para existir a Igreja Povo de Deus a mesma só pode acontecer dentro de uma comunidade de fiéis, exclusivamente voltados para si mesmos, ou seja, intraeclesial.

Entre as causas provocadoras da dificuldade de superação desses desafios podem ser citadas a existência e/ou a presença:

De uma visão de Igreja demasiado clericalizada, isto é, compreender que da Igreja fazem parte apenas os bispos, padres e religiosos e também da existência de leigos e leigas que, muitas vezes, são mais clérigos e mais padres que o próprio clero e padres;

De leigos e leigas que se sentem incapazes de viver vida cristã sem que o padre esteja sempre junto com eles ou que sempre lhes aponte e decida o que devem e/ou podem fazer ou não fazer em seus respectivos ambientes do coração do mundo;

De uma visão dicotômica entre fé e vida, entre a religião confessada e a vida vivida no dia-a-dia dos mundos específicos, fazendo com que leigos e leigas se esqueçam de viver e testemunhar a sua opção de fé, em primeiro lugar, no coração do mundo;

De uma religiosidade cristã nada tendo a ver com as questões sociais e/ou com o resgate da cidadania e da dignidade humana, acreditando até muito em Jesus, mas esquecendo-se de crer como Jesus acreditou e esteve comprometido com os valores do Reino de Deus;

Do fato de que, muitas energias e tempo são gastos com brigas e divisões entre os movimentos, pastorais e com a própria hierarquia eclesial, esquecendo-se da riqueza e da diversidade de alternativas e de dons que cada leigo e leiga, cada movimento e pastoral tem para se colocar a serviço do Reino de Deus;

Da absolutização de posições e de concepções particulares de entender Igreja, por parte de leigos e de padres, absolutizando modos e lugares como únicos meios de salvação, de evangelização e de ser Igreja, ou seja, leigos e padres afirmando que para alguém se salvar a condição é participar desse ou daquele movimento, dessa ou daquela devoção.

Do fato de leigos e leigas, padres e bispos, virem a fazer parte de “uma Igreja que está tão bem organizada que não mais precisa de fé para funcionar”, vindo a transformarem-se apenas em  trabalhadores remunerados e descomprometidos de uma instituição e em funcionários da fé e da oração dos outros.


15. Entraves e doenças.
No contexto da vivência e do gerenciamento eclesial são encontradas muitas doenças que se transformam em entraves, vindo a impedir a vivência de uma vida mais parecida com a proposta de Jesus. Sofre-se de muitas doenças que precisam ser curadas. Entre essas doenças, que se transformam em entraves, podem ser citadas a doença: 

Do clericalismo, do autoritarismo, do querer ser mais padre que o próprio padre e a doença do viver dicotomia entre fé e vida.

Do impor e do absolutizar o jeito particular, o jeito do grupo, de cada um ou de cada uma de ser Igreja, entendendo como se esse seu jeito fosse o único jeito e forma de alguém ser cristão, ser Igreja, viver vida cristã e com isso salvar-se;

Do ficar bobamente perdendo tempo com intrigas e brigas dentro da Igreja, esquecendo-se da riqueza e da diversidade dos dons que são dados a cada um e a cada uma ou a cada grupo, dons esses que precisam ser colocados a serviço da construção do Reino de Deus e da Igreja Povo de Deus;

Da desorganização, da falta de unidade, da falta de compreensão, de acolhimento, de respeito, de valorização e de promoção do diferente que se encontra presente na riqueza da Igreja de Jesus, assumindo que diferente não é sinônimo de contrário.

Sobre a dicotomia entre fé e vida, presente no contexto da Igreja, a Gaudium et Spes se expressa, com muita ênfase, dizendo que “este divórcio entre a fé professada e a vida cotidiana, de muitos, deve ser enumerado entre os erros mais graves do nosso tempo. Os Profetas do Velho Testamento já denunciaram com veemência esse escândalo. E no Novo Testamento, o próprio Jesus Cristo o ameaçava muito com graves penas. Portanto, não se crie oposição artificial entre as atividades profissionais e sociais de uma parte, e de outra, a vida religiosa” (GS 43).


16. Formação, organização e articulação do laicato como necessidade.
Para fazer frente a todos esses desafios, apontados nesse estudo que fala da vocação, da missão e da identidade laical, que aborda a necessidade de ser igreja a partir da realidade, que fala sobre a necessidade de criar consciência eclesial, de conhecer qual o dever dos padres e bispos, o que significa viver autonomia e comunhão, qual o modelo de comunhão adotado pela Igreja, qual a qualidade de relação necessária entre a hierarquia e o laicato, quais as características da identidade laical, qual o específico do leigo e da leiga, como viver esse específico, quais os desafios presentes no lugar da atuação especifica do laicato, quais os desafios identificados dentro da própria Igreja e quais os entraves e as doenças encontradas. Neste item, frente a todas essas constatações apresentam-se outros novos desafios que são a formação, a capacitação, a organização e a articulação dos leigos e leigas.

Verifica-se que, como condição para o exercício de uma atuação mais eficiente e eficaz, é indispensável, intransferível, inadiável e necessário:

Buscar uma melhor formação, organização e articulação dos cristãos leigos e leigas, para melhor serem a Igreja Povo de Deus nas diferentes realidades, nas quais vivem e, organizados e articulados, com mais veemência, eficácia, consistência, força e consciência poderem agir em favor da construção de uma sociedade mais humana, mais justa, solidária e fraterna, tendo em vista a implementação e a inculturação dos valores do Reino de Deus, anunciados por e em Jesus de Nazaré;

Melhorar a organização para somar forças, para aprender mais, para serem mais fortes e para apoiarem-se mais, melhor e mutuamente;

Conhecer mais a diversidade e a riqueza de carismas presentes na vida da Igreja e também buscar um melhor conhecimento do cerne da proposta cristã e do específico da vocação, missão e compromisso dos cristãos leigos e leigas inseridos no mundo que vivem, oram, trabalham, se divertem e convivem;

Criar consciência e assumir realmente a vocação e a missão específicas de cristãos leigos e leigas, que é a de estar no mundo para, a partir de dentro, poder modificá-lo, considerando que nenhuma conversão e/ou mudança de atitudes acontece desde fora; é  sempre a partir do interior de cada um, de dentro das organizações, das associações, dos movimentos e instituições que as mudanças podem acontecer, ou seja, também é de  dentro do mundo no qual se vive, ora, convive e trabalha que podem acontecer as mudanças sólidas, contínuas, consistentes e transformadoras para uma qualidade de vida mais de acordo com a proposta de Jesus.

Para fazer frente a esses desafios, leigos e leigas, são estimulados e encorajados a se organizarem, a se capacitarem, a se formarem e a se articularem para poder melhor cumprir e dar conta desses seus desafios resultantes da sua vocação específica.

Nesse contexto, o laicato conta com um grande aliado que é o Código Canônico, pois, de acordo com esse Código, os leigos e leigas têm o direito de fundar e dirigir associações para fins de caridade e piedade, para favorecer a vocação cristã no mundo e para a consecução comum dessas finalidades (Cânone 215), visando à concretização do Reinado de Deus já, aqui e agora.

Diante dos muitos desafios decorrentes da vocação e da missão dos cristãos leigos e leigas e diante dos desafios de se trabalhar nesses processos de mudança, de conversão e de ressignificação do jeito de ser Igreja no coração do mundo, percebidos como importantes e urgentes, há a necessidade de que esses mesmos leigos e leigas sejam competentes, no mínimo em igualdade de condições com as outras forças presentes neste mundo porque, em muitos desses ambientes, só se é aceito, se muito competentes ou mais competentes que seus próprios colegas de trabalho, criando assim condições de serem também ouvidos nas questões de cunho religioso.

É, entretanto, convicção que a inculturação da proposta cristã, além da competência profissional dos leigos e leigas, se dá, principalmente, pelo testemunho de uma prática profissional e de uma vida alicerçada na ética humano-cristã, cujos valores que a fundamentam são muito diferentes dos valores integrantes, qualificadores e/ou matizadores da ética e/ou da espiritualidade neoliberal capitalista.

É, portanto, fundamental e necessário entender e assumir que se faz urgente buscar muita formação e competência nos assuntos específicos da vida, da vocação e da missão dos cristãos leigos e leigas, bem como muita formação e competência no campo específico de suas respectivas profissões; isso para que, respeitados na sua qualidade e competência profissional venham a se abrir também possibilidades de presença e de aceitação do cristão leigo e leiga na discussão e na apresentação de temáticas religiosas, cristãs e éticas nesses seus contextos de trabalho.


17. Apontando para conclusões.
Após esse estudo, discussão, ponderações e apresentação de compreensões e princípios a serem assumidos e vivenciados, por leigos e leigas comprometidos com as desejadas transformações no coração do mundo onde vivem e trabalham, cabe destacar que:

Os cristãos leigos e leigas têm o direito de buscar sua formação cristã e específica e também o direito de se associar livremente dentro da comunhão da Igreja;

Os cristãos leigos e leigas têm uma missão específica que é a de ser presença de Igreja no Coração do Mundo, seu lugar próprio, prioritário e específico para viver a sua missão eclesial; que possuem missão própria e função própria e por isso lhes cabe o direito de reunirem-se para melhor compreender e assumir esse seu múnus específico, se assim o desejarem;

Os cristãos, leigos e leigas, e suas respectivas organizações, são importantes e indispensáveis para a existência da Igreja Povo de Deus e para a ação organizada dessa mesma Igreja no Coração do Mundo, constituindo-se nos principais protagonistas da proposta do Reinado de Deus nesse seu campo específico;

São desafiados a serem, não membros de segunda categoria, mas a assumirem o seu lugar próprio de protagonistas e de pleno direito de missão no Coração do Mundo;

A família, os jovens, a educação, a saúde, as comunidades eclesiais, a política, a economia, a pesquisa, a ciência e as técnicas, o campo do lazer, da comunicação, do social, aguardam os seus profetas.

A Igreja realmente acontece na comunidade, nas organizações, movimentos, pastorais, associações de classe, instituições e ambientes onde o cristão leigo e leiga faz a história, vive, convive, trabalha, celebra; é onde também necessita de apoio para a sua vida e vivência espiritual, onde precisa de acolhida, de compreensão, de valorização e de promoção de sua dignidade de homem e de mulher e ainda onde o mesmo sonha seus sonhos, busca seu sentido de vida e constrói suas utopias.

O comprometimento com as causas, valores e proposta de Jesus de Nazaré, o Cristo, e o engajamento na construção da Igreja Povo de Deus, acontecem na família, na sua comunidade e grupo de fé da Linha São Pedro, da Picada Café, do Bairro Santa Marta, da Paróquia Santa Teresinha, presentes numa Igreja Particular Diocesana. Cada cristão leigo e cada cristã leiga testemunha, pois, a sua fé dentro e a partir de uma família e comunidade concretas, onde vivem e convivem o João, a Maria, o Felipe, a Luana, o José, o Rodrigo, a Raimunda, a Amanda, a Ida, o Xico dos Anzóis, todos com seus endereços, uma história de vida singular, um trabalho específico, próximos uns dos outros, conhecidos e reconhecidos por seus companheiros e suas companheiras de caminhada eclesial. Nessa realidade está, em primeiríssimo lugar, para cada cristão leigo e para cada cristã leiga, o coração do mundo dentro do qual devem testemunhar a sua adesão específica de fé e é também nela que cada um e cada uma precisa colocar e aquecer o seu coração.

À moda e jeito do cidadão e da cidadã, cada cristão leigo e cada cristã leiga, deve participar opinando, analisando, propondo e decidindo, onde cada leigo e cada leiga encontra-se presente e atuante como integrante de uma Igreja viva e comprometida e com uma vocação e uma missão a cumprir e a testemunhar. Isso significa que, de acordo com o grau de inserção e atuação de cada um e de cada uma, os mesmos devem se fazer ouvir e serem ouvidos, respeitados e promovidos.

O grande princípio inspirador, motivador e norteador dessas reflexões, estudos e provocações acima, é o compromisso ético jesuano-cristão decorrente do batismo e confirmação de cada um e de cada uma dos cristãos leigos e leigas, frente a essa realidade que se apresenta tão desconforme com o Plano de Deus para muitos dos homens e mulheres dos tempos do aqui e agora.

Como estratégia para todas as ações e iniciativas é prudente e necessário adotar o princípio da construção coletiva, da colegialidade, da corresponsabilidade e comunhão no serviço e a serviço do Reinado de Deus, articulando-se com os demais cristãos e/ou organismos da Igreja Povo de Deus.

O Concílio Vaticano II tem uma palavra forte e animadora para os cristãos, leigos e leigas, ao dizer que “cada um dos leigos deve ser, perante o mundo, testemunha da ressurreição e da vida do Senhor Jesus e sinal do Deus vivo. Todos juntos, cada um na medida das suas possibilidades, devem alimentar o mundo com frutos espirituais (cf.Gal 5,22), e devem infundir-lhe o espírito que é próprio dos pobres, dos mansos e dos pacíficos, daqueles que o Senhor no Evangelho proclamou bem-aventurados (cf.Mt 5,3-9). Numa palavra, “o que a alma é no corpo,  sejam-no os cristãos no mundo” (São João Crisóstomo) - (LG 38).
                                               
           
                                                                 O coração do mundo terá seus Profetas?

Que o Espírito de Deus, que é Santo,
           ilumine a todos os cristãos, leigos e leigas, nesses seus desafios ...

Campo Bom, 25 de julho de 2012
                                                                                         
                                                                                             José Wilson Schlickmann